Insônia na véspera da corrida: é normal?
Amanhã é a corrida. Ou o jogo do campeonato, o torneio de jiu-jítsu, o triathlon para o qual você treina há meses. O número de peito já está preso na camiseta, o despertador está programado para a madrugada, e o sono não vem. Calma: é muito comum. Perto de dois em cada três atletas de competição já passaram por essa noite, e ela pesa menos no resultado do que parece. As causas de sempre: o nervosismo e a cabeça repassando o percurso, o despertador marcado para horas antes do normal, a cama de hotel, a macarronada comida tarde. E uma que quase ninguém coloca na conta: a cafeína da véspera. O café no posto da estrada, o da retirada do kit, o cafezinho depois do jantar para ficar esperto: tudo isso ainda está no corpo quando você apaga a luz.
Dormir mal na véspera atrapalha o desempenho?
Menos do que você teme. E você não está sozinho: entre 632 atletas alemães, 66% já tinham dormido mal na véspera de uma competição importante pelo menos uma vez na vida (Erlacher e colegas, 2011). Entre 283 atletas australianos de alto rendimento, 64% tinham dormido pior antes de uma competição importante nos 12 meses anteriores, e o problema número um era pegar no sono (Juliff e colegas, 2015). Nesse segundo grupo, a noite ruim era coisa da véspera, não um sono ruim no dia a dia.
Além disso, o efeito no resultado é menor do que parece. A maioria dos atletas alemães disse que a noite agitada não mudou o resultado; alguns citaram mau humor e sonolência no dia seguinte. E numa meta-análise de 69 publicações (Craven e colegas, 2022), dormir mais tarde que o normal não teve efeito claro no desempenho, e as provas de manhã quase não foram afetadas. O que pesou foi passar a noite inteira em claro ou acordar muito mais cedo que o normal.
A noite que você menos controla, a da véspera, é a que menos conta; as anteriores estão nas suas mãos.
Por que é tão difícil dormir na véspera da competição?
- O nervosismo e os pensamentos. É a causa que os atletas citam primeiro: você repassa o percurso, o ritmo, o adversário, o pior cenário. Quanto mais você corre atrás do sono, mais ele foge (veja por que a mente fica acelerada na hora de dormir).
- O despertador de madrugada. Você deita duas horas mais cedo que o normal, mas o relógio biológico ainda não está pronto para o sono. E o medo de perder a hora faz você conferir o celular de hora em hora. Na Maratona do Rio de 2026, a largada da meia maratona e da maratona foi a partir das 5h30, em ondas (guia do atleta).
- Uma cama que não é a sua. Hotel, pousada, alojamento, colchonete no ginásio: é o “efeito da primeira noite”. Você demora mais para pegar no sono e dorme mais leve, como se metade do cérebro ficasse de vigia (Tamaki e colegas, 2016).
- A macarronada. Caprichar nos carboidratos faz sentido, mas um prato enorme comido tarde ainda está sendo digerido na hora de deitar.
- Os últimos preparativos. Chip, alfinetes, relógio no carregador, previsão do tempo conferida três vezes no celular. Entre 943 corredores da Maratona de Londres, quem tinha o hábito de usar telas antes de dormir costumava levar mais tempo para pegar no sono (Cook e colegas, 2023). A Academia Brasileira do Sono (ABS), numa cartilha de 2024, sugere evitar telas pelo menos uma hora antes de dormir.
- A viagem: horas de estrada, de ônibus ou de avião e, às vezes, a mudança de fuso horário.
- A cafeína da véspera, assunto da próxima seção.
Se você dorme mal quase todas as noites, não só antes das provas, ou se o nervosismo começa a estragar o prazer de competir, converse com um médico, de preferência um médico do esporte; se o sono ruim já dura semanas, um médico do sono.
E se forem os cafés da véspera?
A cafeína do dia da prova é uma boa ideia, e bem estudada: segundo a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN), ela ajuda na resistência aeróbica e faz o esforço parecer mais leve. Dose e horário se planejam à parte (veja cafeína antes do treino: quanto e quando).
Na véspera, a história é outra. A cafeína aparece em todo canto: o café do posto na estrada ou da rodoviária, o da retirada do kit, um energético para a estrada, o cafezinho depois da macarronada para ficar esperto na conversa com a assessoria. Sem perceber, você toma mais que num dia normal, e mais tarde.
Só que a cafeína age bloqueando a adenosina, a molécula que se acumula ao longo do dia e vai trazendo o sono. A meia-vida da cafeína é de cerca de cinco horas pela referência do CaffIQ; em adultos, fica em média entre quatro e seis horas e vai de uma hora e meia a dez horas conforme a pessoa, segundo a ISSN. Ela é mais longa para quem toma anticoncepcional e para quem metaboliza a cafeína devagar.
Um exemplo: você toma um copo americano (190 ml) de café coado depois do jantar. Pela referência do CaffIQ, são cerca de 95 mg de cafeína; com as medições de um estudo brasileiro de 1998 (de 0,43 a 0,84 mg por ml), seriam cerca de 82 a 160 mg. Duas ou três horas depois, na hora de apagar a luz, ainda restam dois terços ou mais (as contas são nossas). E, se você deita mais cedo para uma largada de madrugada, seu horário limite também chega mais cedo: o café que não atrapalharia uma noite qualquer pode atrapalhar a noite da véspera.
O nervosismo já atrasa o sono, e cafeína demais traz uma agitação parecida: entre os efeitos do excesso, a FDA, a agência americana de alimentos e medicamentos, cita coração acelerado, palpitações, ansiedade, tremores e sono atrapalhado. É lenha na fogueira, justamente na noite em que você mais queria sossego.
Mas não fique sem café de uma vez. Se você toma café todo dia, ficar sem o de sempre pela manhã pode dar dor de cabeça e mau humor (Juliano e Griffiths, 2004), bem no dia em que você queria estar tranquilo.
No dia da prova, acerte a dose pela largada, não pelo despertador. Numa corrida noturna ou num jogo à noite, é essa dose que vai pesar na noite seguinte (veja por que o sono não vem depois de treinar à noite).
Como dormir bem antes de uma competição?
- Invista nas noites anteriores, sobretudo na da antevéspera. Num estudo, uma semana de noites mais longas antes de uma série de noites muito curtas limitou a queda de atenção que veio depois (Rupp e colegas, 2009).
- Para uma largada de madrugada, adiante aos poucos a hora de deitar e de acordar nos dias anteriores, em vez de mudar tudo na véspera.
- Na véspera, fique no café de sempre pela manhã. Se quiser mais um, que seja descafeinado ou caiba antes do seu horário limite.
- Arrume a mochila à tarde, com uma lista escrita: nada para conferir na hora de dormir.
- Jante mais cedo e mais leve. A refeição caprichada em carboidratos pode muito bem ser o almoço.
- Se for dormir fora, leve protetor de ouvido e máscara de dormir e mantenha um pequeno ritual de casa: leitura, música, respiração lenta.
- Se o sono demorar, fique deitado com calma, sem olhar o relógio. Descansar já conta, e uma noite curta raramente decide uma corrida.
Na manhã da prova, se seu relógio esportivo mostrar uma VFC (ou HRV) mais baixa que o normal, não se assuste: com uma noite curta e o nervosismo da prova, é o esperado (veja HRV baixo ao acordar).
Para saber o que a cafeína faz com suas noites, teste semanas antes da prova, nunca na véspera. Numa semana de treino forte, deixe seus cafés para a manhã por sete dias seguidos, dê uma nota de 1 a 5 para a facilidade de pegar no sono e compare com uma semana normal.
Como chegar descansado à largada?
O CaffIQ ajuda você a ver em que ponto está e a retomar o controle do seu sono, inclusive na véspera da corrida. Com base no que você toma e no seu perfil, ele estima quanta cafeína vai restar na hora de dormir e dá uma hora limite pessoal: na retirada do kit, você sabe se aquele café ainda cabe ou se é melhor um descafeinado. Se seu relógio grava suas noites no app Saúde, o Laboratório do sono do CaffIQ Pro as compara com sua cafeína na hora de dormir, para ver se a ligação existe no seu caso.
Mantenha a cafeína do dia da prova: ela faz parte da sua preparação. E você não precisa abrir mão do seu café: muitas vezes, basta deixar de lado os cafés a mais da véspera para chegar à largada depois de uma boa noite de sono.
Curta seu café. Proteja suas noites.
O CaffIQ fornece estimativas gerais, não orientação médica. Para qualquer dúvida de saúde, converse com um profissional de saúde.
Quer ver essa conta feita para seu corpo, em tempo real?
Baixar na App Store