Café atrapalha o crescimento? De onde vem o mito

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Não há prova de que o café atrapalhe o crescimento. Nenhum estudo confiável mostrou que café ou cafeína deixem alguém mais baixo, seja criança, adolescente ou adulto. A altura depende sobretudo da genética (cerca de 80%, segundo o MedlinePlus, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos) e, depois, da alimentação, do sono e da saúde durante os anos de crescimento. O mito nasceu de antigas preocupações com o cálcio e os ossos, que pesquisas posteriores não confirmaram.

Isso não quer dizer que dê para ignorar a cafeína no caso das crianças e dos adolescentes: ela merece atenção, só que por outros motivos, como o sono e os energéticos. Veja de onde vem o mito, o que define a altura e o que vale para as crianças.

Café atrapalha o crescimento?

Não. Quando os pesquisadores foram procurar essa ligação, ela não apareceu. A Harvard Health Publishing, da Faculdade de Medicina de Harvard, resume: não há evidência científica válida de que o café atrapalhe o crescimento de alguém.

O aviso passa de geração em geração, muitas vezes na mesa do café da manhã, junto com o café com leite. E o hábito começa cedo: na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 do IBGE, 58,7% dos adolescentes de dez a 19 anos relataram ter tomado café no dia avaliado (o primeiro recordatório de 24 horas da pesquisa), contra 81,1% dos adultos. É o retrato de um dia, não uma medida de consumo diário.

Se você toma café desde pequeno e ficou mais baixo, ou mais alto, do que seus irmãos, a diferença veio da genética e da alimentação, não do café. E tomar café também não faz parar de crescer.

De onde vem a ideia de que café impede de crescer?

Décadas atrás, pesquisadores suspeitavam que a cafeína fizesse o corpo perder cálcio, matéria-prima dos ossos. Da preocupação com os ossos para a ideia de que o café “impede de crescer” foi um pulo.

Depois vieram as medições. Numa revisão publicada em 2002, o pesquisador americano Robert Heaney reuniu os estudos de fisiologia e de balanço de cálcio:

  • a cafeína reduz a absorção de cálcio no intestino, mas muito pouco;
  • ela não altera o cálcio eliminado na urina ao longo de 24 horas;
  • o efeito é tão pequeno que uma ou duas colheres de sopa de leite (15 a 30 ml) bastam para compensá-lo.

Em quem consome as quantidades de cálcio recomendadas, conclui a revisão, não há evidência de que a cafeína cause algum dano aos ossos.

Café tira cálcio dos ossos?

Muito pouco, e a preocupação original nem era a altura: o medo mirava a osteoporose, que aparece bem mais tarde na vida, e não o crescimento da criança.

Segundo a mesma revisão, os estudos que ligavam o café a ossos mais frágeis foram todos feitos com pessoas que consumiam bem menos cálcio do que o recomendado. E quem tomava mais café costumava tomar menos leite: muitas vezes, o café era só o sinal de uma alimentação pobre em cálcio.

O que conta é ter cálcio suficiente na alimentação, e o leite do café com leite também entra nessa conta. Não é preciso abrir mão do café por causa dos ossos, e nada disso interfere na altura de ninguém.

E o café com leite das crianças?

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde (2019), aborda o assunto sem rodeios. Ele reconhece que o café com leite “faz parte da cultura brasileira”, mas não recomenda essa preparação antes dos dois anos. O guia explica que a cafeína do café, da erva-mate, dos chás preto e verde, do chocolate e dos refrigerantes de cola é estimulante e pode deixar a criança agitada; por isso, essas bebidas não devem ser oferecidas às crianças dessa idade. Além disso, elas contêm compostos que reduzem a absorção do cálcio do leite (o guia, em PDF, p. 87).

As medições de Heaney complementam essa orientação, não a contradizem: o efeito existe e é pequeno.

Quanto à cafeína, o café com leite não tem um número único. Em 200 ml, uma tabela brasileira de 2022 calcula cerca de 12 mg com 20% de café, 30 mg com metade café e metade leite, e 48 mg com 80% de café. Os detalhes estão no artigo sobre a cafeína do café com leite e do pingado.

O que define a altura de verdade?

Sobretudo fatores que não dependem da cafeína:

  • Genética. De longe o fator principal: segundo o MedlinePlus, cerca de 80% da altura de uma pessoa depende de variações genéticas herdadas.
  • Alimentação. Proteínas, calorias, cálcio e vitaminas suficientes durante os anos de crescimento.
  • Sono. O hormônio do crescimento é liberado principalmente durante o sono profundo. Um estudo de 1968 (Takahashi e colegas), feito com adultos jovens, registrou um grande pico desse hormônio no início do sono profundo, e esse pico vinha mais tarde quando a pessoa pegava no sono mais tarde. Segundo uma revisão de 1996 (Van Cauter e Plat), essa ligação existe desde a primeira infância.
  • Saúde. Ainda segundo o MedlinePlus, uma alimentação pobre, doenças infecciosas ou um acompanhamento de saúde insuficiente pesam na altura adulta. O cafezinho da manhã, não.

O único item dessa lista em que a cafeína pode interferir é o sono: não por algum efeito nos ossos, mas porque ela pode tirar o sono de que a criança precisa. Aí, sim, há motivo para atenção.

Se não é a altura, o que merece atenção nas crianças?

O crescimento não é o motivo para ter cuidado, mas há outros, bem concretos:

  • O sono. No Brasil, a Associação Brasileira do Sono (ABS) tem um guia para pais e cuidadores, O Sono da Criança e do Adolescente (2023). Segundo ele, o adolescente dorme, em média, de oito a dez horas por dia, e a orientação é: “Evitar cafeína e bebidas energéticas, especialmente à tarde e à noite”. A Academia Americana de Pediatria (AAP) também lembra que a cafeína pode atrapalhar o sono de crianças e adolescentes. Mais detalhes no artigo sobre cafeína na adolescência.
  • A sensibilidade. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças e adolescentes são mais propensos aos efeitos agudos da cafeína, porque ainda não têm tolerância a ela. Nervosismo e coração acelerado podem aparecer com doses que um adulto nem sentiria.
  • Os energéticos. Segundo a marca, uma lata de Red Bull de 250 ml tem 80 mg de cafeína, o que dá cerca de 64 mg por copo de 200 ml. O rótulo da lata de 473 ml do Monster declara 65 mg por porção de 200 ml; na lata inteira, a conta dá cerca de 154 mg. Marcas brasileiras como TNT e Baly também são obrigadas a informar a cafeína no rótulo. Para comparar com o café, veja energético ou café: qual tem mais cafeína.

Pela RDC nº 719/2022 da Anvisa, um energético vendido no Brasil tem no máximo 35 mg de cafeína por 100 ml, e o rótulo traz em destaque o aviso “Crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto”. É o texto da embalagem, não um conselho do CaffIQ. Num relatório de 2011, a AAP concluiu que a cafeína e os outros estimulantes dos energéticos não devem fazer parte da alimentação de crianças e adolescentes, e a SBP cita essa conclusão: os energéticos “não são apropriados para os jovens pacientes”.

Quanta cafeína é demais para uma criança?

Fora a orientação do Guia Alimentar para os menores de dois anos, o Brasil não tem uma idade mínima oficial para a cafeína: o Documento Científico nº 10 da SBP (2022) registra que a maioria dos países, incluindo o Brasil, não faz essa recomendação. Num comunicado do mesmo ano, a SBP destaca que não existe consenso mundial sobre limites de cafeína para crianças e adolescentes.

As referências que a SBP cita vêm do Canadá: no máximo 2,5 mg por quilo de peso por dia dos quatro aos 12 anos, ou seja, 45 mg dos quatro aos seis anos, 62,5 mg dos sete aos nove e 85 mg dos dez aos 12. Hoje, a página da Health Canada, a agência de saúde do governo canadense, traz um único valor de referência, por precaução: 2,5 mg por quilo de peso por dia para crianças e adolescentes até 18 anos. Já a AAP considera que evitar a cafeína é a melhor escolha para todas as crianças.

Quanto cada criança pode tomar é assunto para conversar com o pediatra.

Resumindo

Se você é adulto e tinha medo de ter “parado de crescer” por causa do café, pode ficar tranquilo: isso não aconteceu, nem teria como acontecer.

Se você é pai ou mãe, a resposta tem mais nuances. O café não vai deixar seu filho mais baixo, mas a cafeína pode tirar o sono dele e deixá-lo agitado. E, para a AAP e a SBP, energéticos não são bebida para os mais novos. Uma conversa com o pediatra vale mais que o mito, e mais que o marketing.

No dia a dia, o CaffIQ mostra quanta cafeína veio de cada bebida que você toma, do cafezinho ao energético, e quanto dela ainda fica no seu corpo na hora de dormir. Ele ajuda você a ver em que ponto está e a retomar o controle do seu sono, sem abrir mão do seu café. Se há um adolescente em casa, veja também o artigo sobre cafeína na adolescência.

O CaffIQ fornece estimativas gerais, não orientação médica. Para qualquer dúvida de saúde, converse com um profissional de saúde.

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