Insônia na menopausa: por que o sono muda
Você dormia a noite toda e, de uns meses para cá, acorda de madrugada, sente o lençol quente demais e não consegue mais dormir. Na perimenopausa, a transição para a menopausa, isso é muito comum, e não é uma doença: o climatério, período que inclui essa transição, é “uma fase biológica da vida e não um processo patológico”, na definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) adotada pelo manual do Ministério da Saúde. Várias coisas se somam: os hormônios oscilam e depois caem, os calorões (os fogachos) e os suores noturnos acordam você, o humor e o estresse variam e o sono fica mais leve com os anos. E tem uma causa que costuma passar despercebida: a cafeína. Os mesmos cafés de sempre podem fazer mais diferença num sono que ficou mais leve, e a cafeína aparece entre os possíveis gatilhos de calorão. Veja como separar as causas e tirar a dúvida com um teste de uma semana.
Por que o sono muda perto da menopausa?
No Brasil, a menopausa costuma chegar entre os 45 e os 55 anos, segundo o Ministério da Saúde, e em média aos 48 anos, de acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Antes dela, o climatério pode durar vários anos, e, como descreve o manual do Ministério da Saúde, os hormônios não caem em linha reta: eles oscilam. Por isso, semanas de noites boas podem vir seguidas de semanas de sono picado, sem lógica aparente.
“A mulher pode ter uma onda de calor e acaba acordando várias vezes à noite, tendo dificuldade para voltar a pegar no sono”, explicou em 2022 a ginecologista Lucia Helena Simões, da Febrasgo. O manual do Ministério da Saúde também cita “a insônia ou sono agitado” entre os sintomas encontrados com frequência nessa fase, e lembra que muitas vezes eles têm outras causas além do climatério.
O que deixa o sono picado nessa fase?
Raramente uma coisa só:
- Calorões e suores noturnos. Alguns minutos de calor bastam para acordar, e às vezes é preciso trocar de camiseta antes de voltar a dormir.
- Os próprios hormônios. Num grande estudo americano, a queda do estradiol se associou a mais dificuldade para pegar no sono e para continuar dormindo, pelo relato das próprias mulheres (Kravitz e colegas, 2008).
- Humor e carga mental. Irritabilidade e ansiedade são frequentes nessa fase (e em outras, lembra o Ministério da Saúde), e esse momento da vida costuma vir carregado: filhos adolescentes, pais idosos, trabalho puxado.
- A idade. Nos adultos, a proporção de sono profundo diminui com os anos, segundo uma análise de 65 estudos (Ohayon e colegas, 2004). Veja por que o sono piora depois dos 40.
- A bebida à noite. O álcool ajuda a pegar no sono, mas deixa o sono mais agitado na segunda metade da noite (Ebrahim e colegas, 2013), e está entre os gatilhos dos fogachos citados pelo Ministério da Saúde.
- Quarto quente e abafado, cobertor pesado demais, a vontade de ir ao banheiro de madrugada.
- A cafeína, assunto da próxima seção.
Se as noites mal dormidas estão afetando seu dia a dia, se os calorões incomodam ou se o humor anda para baixo, converse com seu ginecologista ou, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais perto de você. Existem opções, com ou sem hormônios. Sobre os despertares noturnos em geral, veja também por que você acorda de madrugada e não consegue mais dormir.
E se seus cafés estiverem pesando mais do que antes?
É a pista que costuma ser descartada primeiro: “mas eu tomo a mesma quantidade de sempre”. Pois é: a dose é a mesma, mas o sono mudou.
Por que a mesma cafeína atrapalha mais agora?
A cafeína age bloqueando os receptores de adenosina (Ribeiro e Sebastião, 2010), uma substância que parece se acumular no cérebro ao longo do dia e que está ligada à vontade de dormir (Reichert e colegas, 2022). A meia-vida é de cerca de cinco horas pela referência do CaffIQ, com grande variação: de uma hora e meia a dez horas conforme a pessoa, segundo a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN).
Um exemplo: um copo americano (190 ml) de café coado tem cerca de 95 mg de cafeína pela referência do CaffIQ (pelas medições de um estudo brasileiro de 1998, a conta vai de cerca de 82 a 160 mg nesse copo). Tomado às 16h, ele ainda deixa cerca de 48 mg no corpo por volta das 21h e cerca de 24 mg por volta das 2h da madrugada. Para fazer a conta com seus cafés, use a calculadora de cafeína.
Aos 30 anos, com um sono profundo mais firme, essa sobra de cafeína passava despercebida. Em noites já fragilizadas, a cafeína transforma com mais facilidade um microdespertar num despertar de verdade e encurta o sono profundo; numa revisão de estudos, o sono de adultos mais velhos pareceu mais sensível a ela (Clark e Landolt, 2017). A dose também conta: num estudo, 400 mg de cafeína, mesmo seis horas antes de dormir, reduziram o sono de forma mensurável (Drake e colegas, 2013). E, depois de uma noite mal dormida, aquele café a mais para aguentar o dia é justamente o que ainda vai estar no corpo na noite seguinte.
A cafeína piora os calorões?
O manual do Ministério da Saúde associa o aparecimento dos fogachos às bebidas alcoólicas e aos líquidos e alimentos quentes, entre outros fatores. E, entre os hábitos que “podem auxiliar na qualidade de vida” nessa fase, o Ministério da Saúde inclui “evitar o uso de cigarros e consumo de álcool ou cafeína”.
O NHS, o serviço público de saúde britânico, põe a cafeína entre os possíveis gatilhos de calorão, ao lado das bebidas quentes, do álcool, do cigarro e da comida apimentada: um café bem quente entra duas vezes nessa lista. E uma pesquisa com 1.806 mulheres atendidas por queixas da menopausa na Mayo Clinic, nos Estados Unidos, encontrou calorões e suores noturnos um pouco mais incômodos entre as que consumiam cafeína (Faubion e colegas, 2015). A diferença foi pequena, e é uma associação, não uma prova: só um teste mostra como é no seu caso.
A menopausa muda o tempo que a cafeína fica no corpo?
O estrogênio freia a CYP1A2, a enzima do fígado que elimina a cafeína. É por isso que o anticoncepcional combinado faz a cafeína durar mais: a meia-vida pode passar de cerca de cinco para sete a dez horas. O estradiol da terapia hormonal (a reposição hormonal) pode agir no mesmo sentido: num pequeno estudo com 12 mulheres na pós-menopausa, oito semanas de estradiol deixaram o metabolismo da cafeína mais lento (Pollock e colegas, 1999). Sem hormônios, o efeito da própria menopausa é bem menos claro: o que muda mesmo é o sono.
Como saber se a cafeína está atrapalhando seu sono?
Uma semana basta para ter uma primeira resposta:
- Mantenha os cafés que você toma de manhã, na mesma quantidade, para que nenhuma dor de cabeça por falta de café atrapalhe o teste.
- Adiante o último. Nada de cafeína a partir do almoço, ou pelo menos depois do seu horário limite. À tarde, passe para o descafeinado ou para uma bebida gelada sem cafeína.
- Não mude mais nada.
- Anote toda manhã quantas vezes você acordou, os calorões da noite e uma nota de 1 a 5 para sua disposição.
Se, em relação à semana anterior, você acordar menos vezes ou as noites ficarem menos quentes, é sinal de que seus cafés faziam parte do problema. Se nada mudar, as pistas são outras: hormônios, álcool, quarto ou estresse. Converse com seu ginecologista. Como os hormônios variam de um mês para outro, se o resultado ficar confuso, repita o teste no mês seguinte.
O que pode ajudar à noite nessa fase?
- Um quarto fresco: ventilador, ar-condicionado se tiver, lençol e pijama leves (no inverno do Sul, um cobertor fácil de tirar) e um copo de água gelada ao lado da cama, uma das sugestões do NHS para os calorões.
- Uma rotina de sono regular, como recomenda o NHS.
- Atividade física regular, citada pelo Ministério da Saúde entre os hábitos dessa fase, de preferência longe da hora de dormir.
- Anotar o que dispara seus calorões por algumas semanas: às vezes aparece uma surpresa.
E onde entra o CaffIQ?
O CaffIQ ajuda você a ver em que ponto está e a retomar o controle do seu sono, numa fase em que ele fica mais frágil. A partir do que você toma e do seu peso, ele estima quanta cafeína ainda vai estar no corpo na hora de dormir e calcula sua hora limite: assim você sabe se mais um café ainda cabe ou se é melhor ir de descafeinado. O CaffIQ Pro ajusta a conta à sua idade e à sua sensibilidade à cafeína. E, se seu relógio ou anel registra o sono no app Saúde, o Laboratório do sono compara suas noites com a cafeína que ainda estava no corpo na hora de dormir, para ver se, no seu caso, uma coisa tem a ver com a outra.
O primeiro café do dia, aquele que abre sua manhã, pode continuar sendo seu ritual: o que interfere no sono é a cafeína que ainda sobra na hora de dormir. Muitas vezes, basta tomar o último cafezinho mais cedo ou escolher cafés com menos cafeína para os últimos do dia, e já é uma coisa a menos atrapalhando suas noites. O resto, você decide com seu ginecologista.
O CaffIQ fornece estimativas gerais, não orientação médica. Para qualquer dúvida de saúde, converse com um profissional de saúde.
Quer ver essa conta feita para seu corpo, em tempo real?
Baixar na App Store