Café atrapalha o sono? O efeito fase por fase

7 min de leitura

Sim: o café atrapalha o sono, e não só na hora de pegar no sono. A cafeína mexe com quase a noite toda: você demora um pouco mais para adormecer, tem menos sono profundo, um sono REM às vezes atrasado, mais despertares no fim da noite e acorda menos descansado no dia seguinte. Uma meta-análise que reuniu 24 estudos concluiu que, em média, a cafeína encurta o sono em cerca de 45 minutos (Gardiner e colegas, 2023). A armadilha é que você quase não sente nada disso: dá para pegar no sono no horário de sempre, dormir suas oito horas e, mesmo assim, ter tido um sono mais leve.

Por que o café atrapalha o sono?

Tudo começa com a adenosina, que se acumula no cérebro enquanto você está acordado e cria a pressão do sono: quanto mais o dia avança, maior a vontade de dormir. A cafeína se encaixa nos mesmos receptores e os bloqueia (Reichert e colegas, 2022). Ela não apaga o cansaço: só o disfarça.

E ela fica no corpo por muito tempo. A meia-vida da cafeína é de cerca de cinco horas pela referência do CaffIQ; em média, de quatro a seis horas, e de 1,5 a dez horas entre adultos, segundo a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN). E fica mais longa com o anticoncepcional oral, na gravidez e em quem metaboliza a cafeína devagar (veja quanto tempo a cafeína fica no corpo).

Um copo americano (190 ml) de café coado tem cerca de 95 mg de cafeína pela referência do CaffIQ (0,50 mg por ml); pelas medições de um estudo brasileiro de 1998 com 14 marcas, seriam cerca de 82 a 160 mg (0,43 a 0,84 mg por ml; a conta é nossa). Tomado cinco horas antes de dormir, o copo de 95 mg ainda deixa cerca de 48 mg no corpo quando você apaga a luz (conta simplificada, com uma meia-vida de cinco horas). Essa sobra continua agindo durante a noite.

O café atrasa a hora de pegar no sono?

Um pouco, em média: cerca de nove minutos a mais (Gardiner e colegas, 2023). É o efeito menos chamativo, porque no começo da noite a pressão do sono está no máximo e muitas vezes ganha da cafeína. Quando acontece o contrário, o sono chega com menos força e a cabeça aproveita para repassar o dia.

Se você tomou um café mais tarde do que queria, veja quanto tempo depois do café dá para dormir. E, se sua cabeça não desliga, leia por que a mente acelera na hora de dormir.

O que a cafeína faz com o sono profundo?

Aqui o efeito é mais nítido e mais bem documentado. O sono profundo, ou sono de ondas lentas, é a fase mais reparadora, segundo os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), e se concentra no começo da noite. Acontece que a adenosina ajuda justamente o cérebro a entrar nele (Reichert e colegas, 2022): com os receptores bloqueados, o sono pode ficar mais superficial, mesmo que você durma direto. Em média, a cafeína tira cerca de 11 minutos de sono profundo, trocados em parte por sono leve (Gardiner e colegas, 2023).

Com a idade, a mesma perda pesa mais: o sono profundo diminui com os anos (Ohayon e colegas, 2004), e o sono dos adultos mais velhos parece mais sensível à cafeína (Clark e Landolt, 2017). Se você acorda exausto depois de uma noite completa, veja por que dá para dormir oito horas e acordar cansado.

E o sono REM?

O sono REM, o da maioria dos sonhos, ocupa cerca de um quarto do sono de um adulto, segundo a Cleveland Clinic, e ganha espaço perto do amanhecer (NIH). A cafeína tende a atrasá-lo (Weibel e colegas, 2021) e, em alguns estudos em que foi tomada perto da hora de dormir, a diminuí-lo um pouco, embora os dados sejam menos consistentes do que para o sono profundo. A explicação está na ordem das fases: a cafeína que ainda resta de madrugada coincide justamente com a parte da noite mais rica em sono REM.

Por que você acorda de madrugada?

Ao longo da noite, a pressão do sono vai diminuindo: na segunda metade, o sono fica mais leve, e a cafeína que ainda resta facilita os despertares. Em média, ela acrescenta uns 12 minutos acordado no meio da noite (Gardiner e colegas, 2023), sem contar os microdespertares, que quebram a sequência dos ciclos sem deixar lembrança.

Outras causas possíveis (estresse, álcool, quarto quente) e um teste para descobrir qual pesa no seu caso estão em por que você acorda de madrugada e não consegue mais dormir. E, se seu relógio ou anel inteligente diz que você dormiu mal, vale testar o horário dos seus últimos cafés.

O café de ontem explica o cansaço de hoje?

Pode explicar uma parte. Um sono mais leve e mais curto deixa você menos recuperado no dia seguinte. E a cafeína tomada à noite também atrasa o relógio biológico: num estudo com cinco participantes, cerca de 200 mg (2,9 mg por quilo de peso, o que os autores comparam a um expresso duplo), tomados três horas antes da hora habitual de dormir, atrasaram o ritmo da melatonina em cerca de 40 minutos (Burke e colegas, 2015). Relógio atrasado é como um despertador que toca mais cedo para o corpo; o mesmo vale quando você muda de fuso horário.

Depois, vira um ciclo. A manhã é difícil, e você começa o dia com um café mais forte que o normal. Ele tira você da névoa, mas não devolve a noite perdida. Quando ele perde a força, o cansaço disfarçado volta de uma vez: é o efeito rebote. Vem mais um café, às vezes à tarde, e o sono da noite seguinte fica mais leve de novo. No Brasil, 61% de quem toma café toma à tarde, e 31%, à noite (Associação Brasileira da Indústria de Café, Abic, 2025). Se seu último café fica para depois do jantar, veja quando esse cafezinho pesa na noite. Os dois lados desse ciclo estão em por que acordar é tão difícil em algumas manhãs e por que você fica exausto de manhã e cheio de energia à noite.

Por que você não sente nada?

Porque quase tudo acontece enquanto você dorme. Num estudo com 12 adultos, 400 mg de cafeína em comprimido (mais ou menos quatro copos americanos de café coado pela referência do CaffIQ; a conta é nossa), mesmo tomados seis horas antes de dormir, tiraram mais de uma hora do sono medido por um aparelho; no diário de sono dos participantes, a diferença não foi significativa (Drake e colegas, 2013). “Dormi bem” e “tive todo o meu sono profundo” não são a mesma coisa.

O hábito também engana. Em quem toma café todo dia, a tolerância diminui sobretudo o gás que o café dá, não necessariamente o efeito sobre a noite (Weibel e colegas, 2021). Veja por que você toma café e continua com sono. E a genética, sobretudo a enzima CYP1A2, faz o mesmo café pesar pouco numa pessoa e muito em outra (veja quem metaboliza a cafeína rápido ou devagar).

Por onde começar sem abrir mão do café?

O que mais conta são os últimos cafés do dia, o horário e o tamanho deles: eles ainda estão no corpo na hora de dormir. Um teste de uma semana mostra se a cafeína pesa no seu caso:

  1. Adiante sua última bebida com cafeína ou diminua a dose, sem mudar mais nada. Para saber quanto adiantar, calcule a partir da sua hora de dormir: veja até que horas dá para tomar café.
  2. Conte toda a sua cafeína, não só a do café: chá preto ou verde, chimarrão, chá-mate, refrigerante de cola, energético, guaraná em pó e chocolate amargo também contam (veja por que dá para dormir mal mesmo sem tomar café).
  3. Anote toda manhã como você acordou e os despertares da noite, e compare com uma semana normal.

Depois do seu horário limite, um bom descafeinado mantém o ritual: cerca de 3 mg numa dose de expresso descafeinado (30 ml), pela referência do CaffIQ, e 3 mg numa xícara de 150 ml de coado descafeinado, segundo uma tabela brasileira (BraCaffT, 2022), pouco demais para pesar na noite da maioria das pessoas.

O CaffIQ ajuda você a ver em que ponto está e a retomar o controle do seu sono. A partir do que você toma e do seu perfil, ele estima quanta cafeína ainda vai estar no corpo na hora de dormir e calcula sua hora limite pessoal, para que o próximo café não custe uma noite mal dormida.

Continue curtindo seu café: a gente gosta dele tanto quanto você. Muitas vezes basta adiantar o último do dia ou diminuir a dose.

O CaffIQ fornece estimativas gerais, não orientação médica. Para qualquer dúvida de saúde, converse com um profissional de saúde.

Quer ver essa conta feita para seu corpo, em tempo real?

Baixar na App Store