Conilon ou arábica: qual tem mais cafeína?
O conilon, e com folga. No grão, ele tem quase o dobro da cafeína do arábica: cerca de 2,2% do peso, contra 1,2% em média, segundo uma reportagem do g1 Sul de Minas de 2017, reproduzida pelo Centro do Comércio do Café do Estado de Minas Gerais. E conilon e robusta são a mesma espécie, o canéfora, que no Brasil é conhecido sobretudo como conilon.
Só que o conilon “geralmente é utilizado em blends”, diz a mesma reportagem, e aí a diferença encolhe: numa tabela brasileira de 2022, o pó blend tem cerca de um quarto a mais de cafeína por grama que o pó de arábica. Já na bebida, num estudo brasileiro de 2014, um canéfora puro, o Apoatã, teve cerca de 40% a 60% mais cafeína que um arábica preparado do mesmo jeito (cálculo nosso).
Conilon ou arábica: qual tem mais cafeína?
Ganha o conilon, em todas as medições. As faixas mudam conforme o que se mede: grão cru, grão torrado ou pó do mercado.
| Café | Cafeína | Medição |
|---|---|---|
| Pó de arábica, torrado e moído | 1.165 mg a cada 100 g (de 1.050 a 1.280), cerca de 1,2% | tabela brasileira, 2022 |
| Pó blend (proporção não informada) | 1.444 mg a cada 100 g (de 1.270 a 1.770), cerca de 1,4% | tabela brasileira, 2022 |
| Conilon torrado (claro, médio e escuro) | de 2,16% a 2,41% | uma cultivar capixaba, 2024 |
| Conilon cru | de 1,51% a 2,64% | 49 clones do Espírito Santo, 2011 |
Fontes: tabela brasileira BraCaffT (Rocha e colaboradores, Nutrients, 2022); de Souza Costa e colaboradores, Food Research International, 2024; VII Simpósio de Pesquisa dos Cafés do Brasil, 2011. Para converter, 1% do peso equivale a 1.000 mg de cafeína em 100 g.
Uma revisão internacional de 2026 (Molecules) mostra o mesmo quadro no grão cru: de 0,78% a 1,55% de cafeína em arábicas da Etiópia, contra 2,08% e 2,64% em duas medições de robusta. E a torra quase não mexe nisso: na cultivar capixaba Conquista ES8152, a cafeína não variou entre a torra clara, a média e a escura (estudo de 2024). A espécie pesa bem mais.
E na xícara, quanto muda?
Bastante, mas o número depende da cultivar. Num estudo de 2014 com duas cultivares brasileiras, o Apoatã (canéfora) e o Catuaí Amarelo (arábica), torradas e preparadas nas mesmas condições, a bebida do Apoatã ficou entre 123,3 e 192 mg a cada 100 ml, contra 87,3 a 122,5 mg no Catuaí: cerca de 40% a 60% a mais, comparando o menor e o maior valor de cada uma (cálculo nosso, a partir de Tfouni e colaboradores, International Journal of Food Science & Technology). Eram preparos de laboratório, bem mais concentrados que um cafezinho: vale a proporção, não os miligramas.
A referência do CaffIQ para o expresso (70 mg por dose de 30 ml) não distingue a espécie. Já a Nespresso Brasil, que atribui ao robusta duas vezes mais cafeína que ao arábica, informa de 70 a 150 mg para o Espresso Vertuo (40 ml): segundo a marca, a cafeína de cada café depende da proporção de robusta e da quantidade de café moído.
Conilon e robusta são a mesma coisa?
São a mesma espécie, o Coffea canephora, ou canéfora. Conilon, Robusta, Apoatã e Guarini são variedades desse grupo cultivadas comercialmente no Brasil, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Rondônia, 2004); Catuaí, Mundo Novo e Bourbon são variedades de arábica. A Embrapa reconhece que o nome Robusta, dado ao grupo e a uma variedade, “tem provocado uma certa confusão”.
O Conilon veio do Gabão, na África, e chegou ao Sudeste nas primeiras décadas do século XX. O nome vem do francês Kouillou, e no campo muitos produtores o chamam de “Canelão”. No rótulo do café torrado, a Portaria SDA nº 570/2022 permite trocar “canéfora” por “robusta” ou “conilon”: a espécie é a mesma.
E o café libérica?
É outra espécie, bem menos plantada. Arábica e robusta somam cerca de 95% da produção mundial, segundo a revisão de 2026. O libérica e o excelsa têm um teor de cafeína intermediário: em geral, abaixo do robusta e perto do arábica, ou um pouco acima.
Por que o conilon tem mais cafeína?
A cafeína parece funcionar como uma defesa química da planta. Num estudo publicado na Science em 1984, a cafeína e outras metilxantinas inibiram a alimentação de insetos nas concentrações encontradas nas plantas; o autor sugere que elas podem funcionar como inseticidas naturais.
Por que justamente o canéfora produz mais? A explicação mais repetida é que o calor das baixas altitudes traria mais pragas, e a planta faria mais cafeína para se defender. Mas não encontramos estudo que demonstre isso: fica como hipótese. Já o habitat de cada espécie é conhecido: o canéfora, abaixo de 500 m de altitude e entre 24 °C e 28 °C; o arábica, acima de 1.000 m e entre 18 °C e 22 °C (Embrapa Rondônia, 2004). O canéfora é mais rústico e tolera melhor a ferrugem, mas o mesmo documento da Embrapa o aponta como menos tolerante à broca-do-café.
Qual a diferença de sabor entre conilon e arábica?
Segundo a coluna Grão Sagrado, do g1 Sul de Minas (2022):
- Arábica: mais açúcares, uma acidez “mais interessante” e nuances achocolatadas, frutadas, herbáceas e florais. O arábica é “mais valorizado pelo mercado”.
- Conilon: menos açúcares, menor acidez, mais cafeína e mais sólidos solúveis, numa bebida “mais encorpada”.
A Embrapa descreve os grãos de canéfora como “menos aromáticos”. E, segundo um estudo publicado em 2003 na revista Ciência e Agrotecnologia, a bebida do canéfora, “considerada neutra, é muito usada nas misturas ou blends e na indústria de café solúvel”.
Nenhum dos dois é melhor, e o conilon também tem cafés de qualidade. Em 2021, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) reconheceu a Denominação de Origem Matas de Rondônia, a primeira do mundo para o café canéfora, segundo a Embrapa. Ela cobre 15 municípios, e os cafés são vendidos como “Robustas Amazônicos”.
Onde está o conilon no seu café?
O Brasil planta as duas espécies. No levantamento de setembro de 2026, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra em 67,6 milhões de sacas de café: 48,2 milhões de arábica e 19,4 milhões de conilon, cerca de 29% do total (cálculo nosso). A fatia muda de um ano para o outro: em 2022, o conilon chegou a 36% da safra, segundo a Embrapa. Ele vem sobretudo do Espírito Santo (12,1 milhões de sacas em 2026), da Bahia (3,3 milhões) e de Rondônia (2,88 milhões).
Na sua xícara, o conilon aparece em três lugares:
- Nos blends do supermercado, que a reportagem do g1 de 2017 descreve como “muito consumidos na maioria dos lares brasileiros”.
- No café solúvel. O setor processa “predominantemente 80% de café conilon e 20% de café arábica”, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), em 2020. Cada grama de solúvel tem cerca de 33 mg de cafeína (tabela brasileira): veja quanto de cafeína tem o café solúvel.
- Em algumas cápsulas. A 3 Corações Espresso Máximo (5,6 g de café, para máquinas Nespresso Original) é, segundo a marca, “um blend que combina a evolução dos Robustas Amazônicos e a tradição dos Arábicas Naturais”. A marca não publica os miligramas.
Como saber se o seu café é conilon ou arábica?
Pelo rótulo. Desde 1º de janeiro de 2023, a Portaria SDA nº 570/2022, do Ministério da Agricultura (MAPA), obriga o pacote de café torrado a informar a espécie: “100% arábica”, “100% conilon” ou, num blend, a espécie que predomina, como “predominantemente arábica”.
Segundo o MAPA, não há proporção mínima: basta combinar duas espécies, ou duas qualidades de café, para ter um blend. E “Arábica e Conilon” não vale: o rótulo precisa dizer qual das duas predomina.
Ou seja: um “predominantemente arábica” pode levar conilon, e a norma não obriga o pacote a dizer quanto. E “Extraforte” fala da torra, não da espécie: essa categoria da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) pode ser de arábica, de conilon ou de um blend.
O que isso muda na sua cafeína do dia?
Do que mais pesa para o que menos pesa: a quantidade de pó e o tamanho da xícara; depois a espécie; por último, a torra.
- Quer mais cafeína numa xícara pequena? Um blend com conilon tem mais cafeína por grama.
- Quer um pouco menos de cafeína no café de sempre? Um 100% arábica tem menos cafeína por grama. Veja outros ajustes em café com menos cafeína.
- Vai tomar um café no fim da tarde? Um solúvel ou um blend pode ter mais cafeína do que o tamanho da xícara sugere.
No CaffIQ, você registra o Café coado pelo volume ou pelos gramas de pó (opção Gramas), com uma referência de 9 mg de cafeína por grama, calibrada para o arábica. O CaffIQ não pergunta a espécie: se seu pó for um blend com conilon, a dose real provavelmente é maior, e você pode corrigir os miligramas no campo Cafeína do registro. Para comparar o expresso e o coado, veja café coado ou expresso: qual tem mais cafeína? Para as outras bebidas do dia, confira a quantidade de cafeína nas bebidas.
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O CaffIQ fornece estimativas gerais, não orientação médica. Para qualquer dúvida de saúde, converse com um profissional de saúde.
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